Diagnóstico de autismo na vida adulta? Um Relato Pessoal
Como é receber o diagnóstico de autismo na vida adulta? Um relato pessoal.
Olá, este é um relato pessoal sobre diagnóstico tardio do Espectro Autista. Sendo assim, ele não serve como parâmetro, referência ou exemplo para ninguém. Não sou médico, psicólogo, muito menos especialista em saúde mental. Meu objetivo é compartilhar conhecimento relacionado à convivência e à experiência cotidiana de viver com múltiplos transtornos, que geram um sofrimento muitas vezes não compreendido, mas que quase me destruíram reiteradas vezes.
Estigma e medo: Os desafios de crescer com dúvidas internas
O diagnóstico tardio de autismo não foi uma descoberta, mas uma consequência de anos de sofrimento e perdas irreparáveis.
Adolescência e os primeiros sinais de sofrimento
No meu caso, a transição da infância para a adolescência foi extremamente complicada. O aumento da pressão por interações e convivência social em diferentes espaços me levou a um desespero incompreensível e silencioso. Para lidar com essa dor, o álcool e as drogas surgiram de forma avassaladora como uma tentativa frustrada de amenizar o sofrimento.
A busca por alívio: álcool, drogas e suas consequências
Foi na adolescência que tive meu primeiro contato com a psiquiatria. Esse período foi muito difícil para minha família, especialmente para minha mãe, meu pai e minhas irmãs. Verem o garoto tranquilo, que adorava livros e parecia promissor nos estudos, de repente entrar em um caminho que muitas vezes não tem volta, foi devastador. Minha relação abusiva com o álcool e as drogas durou pouco mais de dez anos.
O longo caminho para a sobriedade
Eu passei quase 4 anos entre internações em comunidades terapêuticas. Depois que me recuperei e fiquei sóbrio, já se passaram mais de 20 anos desde então. Após retornar para minha família, continuei o tratamento psiquiátrico com medicamentos para depressão, ansiedade e pânico. Apesar disso, as dificuldades extremas persistiram. Mesmo estudando e com um bom emprego, enfrentei profundas crises depressivas e acabei afastado tanto do trabalho quanto da vida social reiteradas vezes.
Persistência na luta contra as dificuldades diárias
Na tentativa de driblar essas barreiras, mudei de área profissional algumas vezes. Contudo, isso não resolveu o problema: em pouco tempo, eu me via novamente preso em casa, paralisado por novas crises depressivas, cada vez maiores e mais perigosas.
Refletindo sobre minhas angústias, decidi fazer faculdade de licenciatura. Inscrevi-me para os cursos de Letras e História. Como a bolsa de História era maior e minha situação financeira era péssima, optei por ela. Com grande dificuldade, e com a ajuda de professores e colegas, consegui me formar após quatro anos.
Eu já havia aceitado, há muito tempo, que tinha alguma deficiência. Sem qualquer base médica, criava essa narrativa para justificar e aceitar que meu papel seria lutar todos os dias para continuar vivo, sem esperar grandes conquistas ou alegrias. Contudo, percebi que poderia, talvez, ajudar outras pessoas, e ser professor me parecia um caminho possível.
O papel da paternidade na jornada de autodescoberta
Após me formar, levei dois anos para começar a lecionar. Durante esse tempo, imaginava que minha história pudesse contribuir de alguma forma com a experiência de outras pessoas. Nesse período, conheci uma pessoa incrível, com quem tive um filho. Ele foi um fator decisivo para que eu enfrentasse minhas radicalidades, meus medos e minha rigidez cognitiva, e para que eu finalmente aceitasse um diagnóstico diferencial.
Reflexões sobre autismo e o peso do preconceito
Nos últimos anos, fui professor em diversos contextos: espaços de privação de liberdade, comunidades quilombolas e escolas regulares, tanto no ensino fundamental quanto no médio.
Meu filho também está no espectro autista. Por minha culpa, seu diagnóstico foi atrasado, pois as características e dificuldades que ele apresentava eram as mesmas que eu carregava. Por ignorância, desinformação ou preconceito, aceitar a condição de deficiência neurobiológica tem sido um processo doloroso e desafiador.
Finalizando: Transformar a dor em aprendizado
Hoje, escrevo este relato como parte do meu processo de aceitação. Compartilhar minha experiência é uma tentativa de transformar a dor em aprendizado, na esperança de que outras pessoas se sintam menos sozinhas ao enfrentar seus próprios desafios.


Importante compartilhar essa experiência, certamente muitas outras pessoas vão se ver nisso.
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